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Conto: A arte do destino - parte 10 (The End)

14.11.13





Uma das piores sensações do mundo deve ser essa de passar séculos condenando alguém para, mais tarde, descobrir que o verdadeiro culpado era você. Deve machucar, fazer com que criemos raiva de nós mesmos. Ao menos foi exatamente desse jeito que Amélia se sentiu ao descobrir a verdade.

Amélia foi correndo em direção a casa de Daniel que, por sorte, não ficava tão longe assim do Santander Cultural. Não demorou muito, e Amélia chegou na rua em que Daniel mora. Parou a algumas casas antes da dele, porque sentiu medo. A coragem costuma ir embora no momento em que mais precisamos dela. Cabe a nós, mesmo com medo, ir a luta para realizarmos nossos sonhos. E, em um momento de loucura, foi isso que Amélia fez. Seguiu de uma vez por todas em direção da casa do garoto que tanto amava. Sim, ela amava Daniel. Ela ama Daniel. E não havia mais motivos para esconder isso de ninguém, nem de si mesma.

Parou em frente a casa de Daniel e novamente buscou coragem dentro de si. Desta vez, precisava de coragem para tocar a campainha. Mas a coragem não veio. Bem, tanto faz: ela o fez assim mesmo. Já estava se acostumando a sentir medo, na verdade. Não demorou quase nada e Daniel abriu a porta. Ao ver quem era, paralisou. Os dois paralisaram. Se encararam por alguns minutos, até que Amélia conseguiu falar algo que resumia tudo o que estava com dificuldades de dizer.

- Desculpa Daniel, por tudo. Eu julguei você. Estava errada. E eu te amo.

Daniel, que já estava convicto de não ouvir Amélia caso ela fosse procurá-lo, não pôde evitar de sentir algo que já não sentia a anos: seu coração batendo mais forte. Ele tinha prometido a si mesmo que seria frio como um cubo de gelo com ela, e que a rejeitaria sem dúvida nenhuma. Rejeitaria cada palavra que viesse dela. Mas existem promessas praticamente impossíveis de cumprir. Essa era uma delas. Sabe por quê? Porque envolve amor. Um amor que ainda vive.

- Como soube a verdade? – Perguntou ele.
- A Alexa me contou. Eu não imaginava...
- Não Amélia, muito pelo contrário, – Cortou Daniel – você imaginava até de mais. Se não tivesse imaginado tanto e simplesmente me escutado, talvez estivéssemos juntos até hoje.

Uma lágrima caiu de um dos olhos de Amélia.

- Eu sei, Daniel – Continuou ela, com calma – eu tive uma atitude completamente infantil. De menininha mimada, sabe? Ainda não acredito que fui capaz de fazer o que fiz. Julguei você, julguei a Alexa... Julguei a todos. Não ouvi ninguém. Sei que esse foi o meu erro. Eu fiz questão de jogar o amor que você sentia por mim pela janela. Eu sei que jamais ficaremos juntos novamente, Daniel. Só senti necessidade de me desculpar – mentiu ela, porque é claro que ela imaginava alguma cena de reconciliação fofa, que, pelo jeito, não iria acontecer.

Daniel suspirou.

- Desculpas aceitas, então. Era só isso?
- Era. Adeus, Daniel. – Disse Amélia, já dando os primeiros passos para ir embora.

Mas alguém a impediu.


- Não era só isso não, e vocês dois sabem que há muito mais para falarem um ao outro. Hora de pararem de fingir, não acham? – Era a voz de Dona Melina.
- Vovó, o que está fazendo aqui? Devia estar em casa, repousando! E como chegou aqui? – Perguntou Amélia.
- Como estou aqui não vem ao caso, Mel. Vamos manter o foco no que interessa: vocês.

Quando Amélia foi embora do local onde ela e Alexa conversaram mais cedo, Alexa imaginou que Daniel não iria querer ouvi-la. Ou melhor: que os dois ficariam sem coragem para dizer o que realmente queriam falar. Então ela chamou Mia, as duas foram de carro até a casa de Dona Melina e a convenceram a subir. Enquanto iam até a casa de Daniel, Alexa contou o que realmente aconteceu naquele verão e falou que Amélia foi atrás de Daniel. Disse também que estava levando Dona Melina para tentar ajudar, que por sua vez respondeu: “Okay Alexa, mas por que não estamos indo mais rápido!?”

- Nós já conversamos tudo o que tínhamos para conversar. – Argumentou Daniel – Dona Melina, eu sei que Amélia é sua neta e que é seu dever querer a felicidade dela, mas nada que você falar irá adiantar. Nossa chance já acabou faz muito tempo. Uma eternidade.

- Daniel, você tem noção do que está fazendo da sua vida, cara? – Era Alexa falando - A Amélia errou, e você também. Ela não te escutou, e você, por sua vez, não insistiu. Não tem essa de enxergar apenas o erro de uma pessoa, você seria hipócrita demais se fizesse isso. E, se quer saber, eu errei também. Demorei tempo demais para contar a verdade para Amélia. Me desculpe Amélia. E me desculpe você também, Daniel. Desculpe por eu não te mostrar que você estava errado em abrir mão de tudo. Você sabe muito bem que eu sou uma aspirante a escritora, não é? Escrevo desde o tempo em que namorávamos, Daniel, e você provavelmente lembra disso, certo? Pois bem, a verdade é que eu passei todos esses anos tentando escrever um belo romance, mas nenhuma história que eu criava me agradava. Nenhuma história que eu criava chegava aos pés da história que você me contou, Daniel, há quatro anos atrás, quando vocês dois ainda namoravam. A história de vocês dois, juntos, poderia muito bem virar um livro. É o livro que eu sempre quis escrever, mas nunca tive inspiração suficiente para criar. Tudo bem que aconteceram alguns contratempos, mas isso justifica vocês terem jogado tudo pela janela? Olha, uma coisa eu sei: ainda dá tempo pra uma segunda chance.

Cerca de dois minutos de silêncio absoluto se seguiram após o discurso de Alexa. Mia observava tudo de longe, e tanto ela quanto Dona Melina estavam mais do que emocionadas. Depois de algum tempinho que pareceu uma eternidade, Daniel e Amélia finalmente tiveram coragem de encarar um ao outro. Ambos estavam com uma expressão triste no rosto. Amélia tinha até lágrimas em sua face. Mas os olhos de ambos sorriam. E eles perceberam. Voltaram a entender a linguagem dos olhares que tanto usaram no passado. Ao mesmo tempo, eles sorriram.

- Amélia, você acredita em recomeços? Segundas chances completamente novas, vazias de ressentimentos e tristezas passadas? – Perguntou Daniel.

- Aí depende... Acho que eu acredito sim. Mas só se ainda existir amor de ambas as pessoas. E você? – Amélia.

- Eu acredito. E sabe no que mais acredito? Em amores eternos, que o tempo jamais será capaz de apagar. – Respondeu Daniel, a essa altura já chegando mais perto de Amélia.

- Acredito que compartilhamos da mesma crença. – Respondeu ela.

Você já pode imaginar o que aconteceu em seguida. Um beijo, feliz e apaixonado. Ambos pareciam estar nas nuvens. E enquanto eles flutuavam, Dona Melina dirigiu a palavra a Alexa:

- E você ainda disse que precisava da minha ajuda... Alexa, você tem noção do que acabou de fazer aqui?
- Deixe-me ver... Fiz com que um casal lindo renascesse das cinzas? – Respondeu Alexa.
- Mais ou menos isso.

(...)

Cerca de duas semanas depois, veio o diagnóstico de Dona Melina: ela estava mesmo com câncer. Em estágio I. Ainda não estava avançado, com uma cirurgia e quimioterapia ela tinha grandes chances (cerca de 95%) de ficar bem. Ela de fato fez a cirurgia e, com a quimioterapia e tudo mais, estava sobrevivendo.
Um mês após a cirurgia de Dona Melina, Amélia decidiu se mudar para Porto Alegre. Ela já havia visitado um estúdio fotográfico da cidade, conversado com o dono e perguntado sobre a possibilidade de conseguir um emprego por lá, e o dono do estúdio concordou. Depois entrou em contado com Camila, explicando toda a situação de sua avó e da reconciliação com Daniel, e disse que iria ter que deixar São Paulo e o estúdio por conta da amiga. Camila, por sua vez, perguntou se Amélia não queria vender sua parte para ela, e Amélia pensou bem e acabou concordando. Seria bom ter dinheiro para comprar uma casa própria.

Depois, Amélia deu a notícia a seus pais, avós e, claro, Daniel.

- Querida, você não precisa ficar aqui por mim. – Disse Dona Melina, ao ouvir as novidades.

- Vovó, não é por você que estou me mudando para cá. Quer dizer, é por você também, mas tem mais haver com aquela sua antiga teoria de que nunca podemos ir embora da cidade em que encontramos o amor... – Respondeu Amélia, olhando para Daniel, que estava na sala de estar da casa dos avós de Amélia também.

- Amélia, eu amo você. – Disse ele – Aceita sair para jantar essa noite?

Ela aceitou. E foi nesse jantar que Daniel pediu Amélia em casamento. Alguém tem dúvidas de que ela disse sim?

- Mas não quero esperar anos para o casamento acontecer: tenho um dinheiro na poupança, não é muito, mas dá para dar entrada em uma casa e... – Ia dizendo Daniel, mas Amélia o interrompeu.

- Sim, Daniel! E com o dinheiro que ganharei de Camila na venda do estúdio, faremos nosso casamento, e o resto vai para a poupança e pros gastos na casa, okay?

- Okay. E só mais uma coisa: não gostaria de trabalhar no mesmo estúdio que eu? Garanto que é ótimo assim como aquele estúdio fotográfico em que você conseguiu emprego. Mostrei para meu chefe algumas fotos tiradas por você e o site do seu estúdio também, e ele disse que está mais que contratada! Claro, isso se você quiser...

- Se eu quero? Daniel, por que você sempre faz perguntas obvias? – Respondeu Amélia, sorrindo.

E cinco meses após esse jantar, quando Dona Melina já estava se sentindo um pouco mais disposta, Amélia e Daniel já tinham a casa deles. Era pequena, não estava completamente paga, mas era deles. E, em um certo fim de semana, a cerimônia de casamento na igreja aconteceu. Como madrinha de casamento, foi escolhida Alexa e o padrinho foi Matheus, amigo antigo de Daniel e atual namorado de Alexa. Todos estavam presentes: os pais de Amélia, os pais de Daniel, Dona Melina, Senhor Vinícius, as famílias completas de cada um deles, os amigos...
Amélia chegou a contar depois, para quem quisesse ouvir, lá na festa de casamento, que enquanto olhava para o vestido lindo que estava usando, mal conseguia acreditar que aquele dia finalmente havia chegado.

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Amélia, eu pensei em vários presentes imagináveis para seu aniversário de um ano de casada, mas nenhum me pareceu melhor do que esse amontoado de palavras contando uma parte da sua história. 
Caso tenha gostado, não agradeça somente a mim, e sim a seus avôs, seus pais e o Daniel também. Tivemos algumas reuniões secretas em que eles me contaram sobre suas versões dos fatos e, misturando tudo o que me disseram, o que eu mesma vi e o que ouvi de você quando nos tornamos amigas, escrevi sua história. Ou melhor: a história de vocês dois. Espero do fundo do meu coração que você tenha gostado dessas páginas escritas por sua amiga aspirante a escritora. 
Não se esqueça de guardar as folhas em algum lugar completamente seguro, está bem? Seus futuros filhos merecem, algum dia, ler sobre como seus pais fizeram nascer esse amor que, mesmo escondido lá no fundo do coração de vocês, durou tanto tempo. E que durará muito mais, Amélia. Eu sei que será para sempre. Soube desde o dia em que voltei daquela trágica viagem e Daniel me falou de você, porque os olhos dele brilharam de uma forma sobrenatural ao dizer seu nome. Amores assim nunca se acabam, e eu tenho certeza de que você e Daniel sabem disso também. 

Com carinho,
Alexa.

The End.

6 comentários:

  1. "E viveram felizes para sempre..."
    Tá, parei.
    Mas, fala sério, Taís, esse final foi ótimo! Finalmente o Daniel aceitou ouvir e se reconciliar com a Amélia; esse amor, afinal de contas, era sincero e real, e eles mereciam uma segunda chance de fazer as coisas darem certo dessa vez. ^_^ E a Alexa se mostrou uma ótima personagem! Uma amiga, mesmo, ou quem sabe até uma fada-madrinha moderna, porque né, o que ela disse na varanda da casa do Daniel foi, tipo... <3 Enfim, amei! Fechou com chave de ouro!
    Beijos...

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  2. Ok, não preciso nem comentar né Taís?
    Mas eu QUERO comentar! Então vai lá...
    Eu sabia que ia ter um final feliz nessa história, afinal, no primeiro capítulo eu me lembro que ela já estava casando e estava relembrando seu passado. Mas não, não era exatamente por causa disso que eu sabia que ia ter um final feliz. Todos sabemos que Amélia e Daniel eram feitos um para o outro.
    E além do mais, aquele começo triunfal... Ai Taís, você vive arrasando.... "Uma das piores sensações do mundo deve ser essa de passar séculos condenando alguém para, mais tarde, descobrir que o verdadeiro culpado era você." - Isso fala tudo. Como você consegue fazer começos tão lindos assim Taís? Você tem um talento inexplicável, e como eu disse, e vou cumprir, eu ainda vou imprimir esses contos e fazer um livro só pra mim. E óbvio, com os créditos né? haha . E tenho certeza que quem ler, vai amar... :)
    Beijinhos linda!

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  3. OMG Taís!!!! Eu amei, simplesmente amei o final. Que ideia maravilhosa. É a Alexa, aspirante a escritora, que escreveu a história... e foi o presente de casamento. Awn. Você escreve coisas muito... filosóficas? E românticas, com certeza. Sempre há uma segunda chance. Nós não devemos julgar sem antes saber. Amores de verdade não terminam por besteira, com certeza. Tantas coisas lindas, awn, dá vontade de chorar! Amei, amei e amei, flor!
    Beijoca

    Foreverbia.blogspot.com

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  4. Awn que lindo, final mais perfeito impossível *-*
    Amei amei amei!

    Att, Line
    putmerd.blogspot.com

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  5. Que fofa a história Taís, o final de a Alexia ter escrito a história e tal... me lembrou muiito a Fazendo meu Filme. Adorei, parabéns /)

    Bjs

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  6. Taís que lindo!!!! Belo final... porque você não continua com o conto???

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