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Conto: A arte do destino - parte 9

3.11.13


Ás vezes, grandes erros poderiam ser evitados com uma simples arma: diálogo. Quando não permitimos ao próximo que nos fale sua versão da história e tomamos aquilo que imaginamos e vimos como verdade absoluta, podemos estar errados. Os olhos enganam, e muito. Existem ilusões de óptica por todos os lados.

Após tocar a campainha, Amélia escutou um pequeno diálogo entre sua avó e Daniel:
- Daniel, você pode atender a porta para mim?
- Claro, Dona Melina. – Respondeu ele.

E a vontade que Amélia tinha de fugir correndo dali aumentou ainda mais. Na verdade, ela estava prestes a sair correndo de verdade, mas não teve tempo de dar um passo sequer: Daniel abriu a porta, sorrindo. Mas ao ver Amélia, deixou de sorrir. Os dois se encararam, por cerca de quinze segundos. Nenhum deles falou nada. Há quatro anos, também costumavam se encarar em silêncio. Mas com as feridas não cicatrizadas que estavam em seus corações já há muito tempo, o silêncio se tornou incômodo.
Passado o momento da surpresa do encontro inesperado, Daniel quebrou o silêncio, de maneira fria.

- Entre, eu já estou de saída. Você provavelmente quer ficar sozinha com sua avó. Não temos nada a conversar, certo? Não preciso continuar aqui. – Disse Daniel, com uma das caretas mais feias que Amélia já havia visto na vida, virou-se pra Dona Melina e continuou – Tchau, Dona Melina, qualquer coisa é só chamar. – E foi embora, saindo pela porta, tentando não realizar contato físico com Amélia, e logo já estava longe.

E ela ficou ali, parada na porta, por mais alguns segundos. Amélia queria ter dito alguma coisa, respondido de uma maneira tão seca quanto a que Daniel falou com ela, mas não conseguiu. Ela tinha 21 anos mais continuava agindo como uma adolescente insegura e confusa em algumas ocasiões. Bem, mas seria meio impossível não ficar confusa no lugar de Amélia: Daniel havia acabado de dizer, quase que com todas as letras para Melina, que aprendeu a cantar aquela música por causa de Amélia e agora a tratava daquela forma?

- Amélia, é você querida? – Perguntou Dona Melina, tirando Amélia de seus devaneios.
- Sou eu sim, vovó! Que saudade! Como você está? – Respondeu entrando na casa e colocando um sorriso nada verdadeiro no rosto.
- Eu estou bem querida... Ei, espere! O que você está fazendo aqui? – Perguntou Dona Melina, parecendo um pouco irritada.
- Vovó, eu preciso mesmo responder? Você não está bem, e eu vim te ver. É simples. Não se deixa pessoas que amamos, que estão doentes e moram longe sozinhas. Por favor, vovó, não brigue comigo nem com meus pais. Nos importamos com você. Amamos você, e queremos estar aqui, por perto, para o que for preciso. É mesmo justo sermos julgados por isso?
Dona Melina não disse uma palavra se quer. Apenas se levantou, com um pouco de esforço, do sofá em que estava e deu um abraço apertado na neta.
- Fico feliz que esteja aqui, Mel. Fico feliz que se importe, mesmo eu não achando toda essa preocupação necessária, porque estou bem. E onde estão seus pais?
- Descarregando as malas do carro, já devem estar chegando.
- Fico feliz que eles estejam aqui também. – Completou Dona Melina, ainda abraçada com Amélia.

(...)

- Essa exposição está realmente linda! Uma das mais coloridas e belas que o Santander já criou. – Falou uma mulher, que estava a poucos metros de Amélia.

Depois que os pais de Amélia entraram na casa de Dona Melina, eles todos conversaram um pouco e se instalaram nos quartos. Não demorou muito e Senhor Vinícius apareceu também, ele havia ido ao mercado. Quando ele voltou para casa, todos conversaram mais ainda.

Naquele mesmo dia, mais tarde, Amélia decidiu passear pela cidade. Mais especificadamente: visitar o Santander Cultural. Dessa vez, ele estava com uma linda exposição, repleta de cores. Várias pessoas estavam comentando que aquela era uma das mais bonitas exposições já realizadas lá. Mas Amélia não compartilhava desse mesmo pensamento. Para ela, por mais que tudo estivesse colorido, estava cinza. Sem cor, sem vida. E a imagem de Daniel aparecia em cada uma das obras que ela via. E Amélia continuou sentindo-se idiota.

- Alexa, você também não acha que essa exposição é bela? – Perguntou aquela mesma mulher que estava a poucos metros de Amélia.
- Acho sim, Mia. – Respondeu a tal Alexa.

Alexa. Era esse o nome da garota. Amélia se lembrava perfeitamente. Involuntariamente, Amélia olhou para ela. E sim, era a mesma garota da foto, mais velha, mas a mesma. Com o susto, Amélia deixou a câmera que segurava cair no chão, e nesse momento, Alexa olhou para Amélia também. Os olhares se cruzaram. Amélia não sabia exatamente o que fazer, e por isso tratou de fugir. Pegou a câmera e foi embora, com passos apressados.

- Espere!! – Gritou Alexa, enquanto corria em direção a Amélia.
- O que você está fazendo? – Perguntou Mia.
- Mais tarde eu te explico Mia, agora tenho que correr! – Respondeu gritando, já longe, quase na saída.

Os seguranças e as pessoas em volta ficaram olhando assustados, mas não fizeram nada. Logo Alexa e Amélia já estavam lá fora. Amélia corria, mas Alexa corria mais rápido, e a alcançou na porta de saída. Segurou Amélia pelo braço.

- Você é a Amélia, não é? O Daniel me mostrou fotos suas.
- Não te interessa quem sou o deixo de ser. – Respondeu Amélia, em tom frio.
- É, sem dúvida nenhuma é você. – Continuou Alexa, ainda segurando o braço de Amélia. – Sabe, você deveria ter deixado o Daniel se explicar. Ele nunca te traiu, Amélia. E você saberia disso se tivesse ouvido meu amigo. Sim, amigo, é isso que somos. – Completou e soltou o braço de Amélia.
- Você vai me contar o que aconteceu ou não vai? Porque, caso não tenha nada a dizer, eu vou embora. – Perguntou Amélia.
- Vou contar sim. Prepare-se para uma longa história.
- Estou pronta para ouvir.

As duas foram caminhando até um banco de madeira próximo, porque, segundo Alexa, ambas ficariam cansadas se ficassem em pé durante a conversa. Amélia estava nervosa e irritada, mas algo dizia a ela que o certo a fazer era ouvir Alexa. Sentaram-se, Alexa respirou fundo, e começou a falar.

- Há quatro anos atrás, eu havia ido viajar nas férias de verão com minha avó, Carina. Fomos para Natal, no Rio Grande do Norte. Um dos sonhos da minha avó era conhecer a praia de lá. Eu nunca tinha visto minha avó tão feliz quanto naquela viagem. Os dois meses que passamos lá foram ótimos. Mas como eu sei que você não está interessada nisso tudo, vou logo à parte importante: no dia em que iríamos voltar a Porto Alegre, pegamos um táxi em direção ao aeroporto de Natal, e nesse mesmo táxi, minha avó começou a passar muito, muito mal. Pedi para o taxista levá-la ao hospital, e lá ela ficou internada por semanas. Os médicos disseram que ela já estava fraca e que a mudança climática só piorou tudo. Minha avó teve um infarto, e morreu no hospital.
Minha avó era minha única família, meu pai é um irresponsável que eu nem conheci, que fugiu quando soube que minha mãe estava grávida. E minha mãe, por sua vez, encontrou outro homem e se casou com ele, só que ele não aceitava minha existência. Por isso fui criada por minha avó. Quando ela morreu, eu senti parte de mim morrer também.
Quando voltei para cá, passei a morar com minha tia Paula e sua filha, Mia, minha prima. Todos os meus amigos já sabiam do ocorrido, e se aproximaram de mim para dar apoio. Eu realmente precisava. Sabe, entre esses meus amigos, estava meu ex-namorado, que não falava comigo desde o rompimento, há um ano e meio antes. Ele se reaproximou de mim, e nos tornamos grandes amigos em pouco tempo. Mas ele sempre deixou muito claro que queria apenas amizade, porque estava namorando uma garota linda chamada Amélia. Sabe, o Daniel costumava falar muito de você.
Um certo dia, eu estava revendo fotos antigas com meus amigos e amigas e encontrei uma de quando nós dois ainda namorávamos. Resolvi postar no facebook porque eu tenho fotos com todos os meus amigos e amigas por lá. Eu até teria postado outra foto, mas não havíamos tirado nenhuma juntos desde que rompemos.
Depois você viu a foto e, segundo o Daniel, não o deixou se explicar. Então ele desistiu. Me contou tudo o que houve entre vocês e me fez prometer que eu não me intrometeria. Mas agora chega. Cansei de ficar calada, você precisava saber a verdade. O Daniel nunca te traiu.

Amélia nunca havia se sentido tão mal por dentro durante toda a sua vida. Havia julgado Daniel sem deixá-lo explicar as coisas. E havia também julgado a pobre Alexa... Tudo bem, aquela história poderia não passar de uma mentira, mas Amélia sentiu sinceridade na voz de Alexa. Ninguém brinca com esse tipo de coisa. E depois de pensar um pouco e sentir algumas lágrimas brotando de seus olhos, perguntou:

- O Daniel ainda mora no mesmo endereço?
- Sim.

Amélia se levantou do banco.

- O que você vai fazer? – Perguntou Alexa, levantando-se também.
- Alexa, eu errei. Errei com você e com o Daniel. Me desculpe, mesmo. Sinto muito por tudo que aconteceu. O que eu vou fazer agora? É simples: vou consertar o maior erro que já cometi na vida. Ou ao menos tentar fazer isso.

E então Amélia foi embora, na direção da casa de Daniel. Alexa permaneceu parada por algum tempo e, quando Amélia já estava distante, Alexa falou baixinho:

- Boa sorte Amélia.

E ela teria sorte, sim. A coragem sempre é recompensada. Amélia foi atrás do destino que queria. Era arriscado? Era. Daniel poderia não querer falar com ela. Mas qualquer coisa é melhor do que viver pensando no que poderia ter sido se tivesse ao menos tentado.

7 comentários:

  1. Que lindo, Taís! Fico feliz que o Daniel não a tenha traído, afinal, desde o primeiro capítulo, eu me apaixonei por ele, AHUSUHSA' Agora só me resta esperar o próximo capítulo :3

    Um grande beijo,

    Juu-Chan || Nescau com Nutella

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  2. Eu já imaginava que o Daniel não trairia ela. Afinal, ele amava ela, não amava? (Ainda acho que ama). Já to vendo um final feliz nessa história, espero que eles se reconciliem e voltem. Eles eram muito lindos juntos. :)) E quem sabe ela e Alexa se tornam melhores amigas não é? Pois apesar de ela se ex do Daniel, com certeza tem um ótimo coração e quer ver Daniel feliz com uma pessoa que ame. No caso, Amélia. Realmente Amélia cometeu um grande erro por julgar os dois. Ela não confiava no Daniel? E ainda acho, que a Amélia foi bem egoísta nessa parte. Ela deveria ter escutado Daniel, pois ele também estava meio que triste por ter que morar longe de Amélia.
    Não vejo a hora da parte 10. Isso ainda vai dar um livro. Vou imprimir cada parte pra mim sempre ler Taís. Pois você sabe o quanto eu amo esse conto não é?
    E realmente: Grandes erros com poderiam ser evitados com uma simples arma: diálogo.

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  3. Nossa, eu como menino vou dizer, eu rejeitaria a Amélia, porque amor não é algo que acaba com um rompimento e ela não o deixou explicar, então só quero ver o que vai dar hehehe

    Beijo!

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  4. "Mas qualquer coisa é melhor do que viver pensando no que poderia ter sido se tivesse ao menos tentado." E, como sempre, Taís Kirsch arrasa na hora de fechar um capítulo!
    Que bom que a Amélia descobriu a verdade - não, melhor, que bom que uma das responsáveis pelo mal-entendido simplesmente quis contar a verdade para ela <3 Quero muito ver os dois juntos novamente, apesar do Daniel ter agido como um idiota agindo naquela frieza, no início do capítulo. Ansiosa! *suspirando aqui*
    Beijos...

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  5. Eu gostei muito da parte 9! Sinceramente, a atitude da Amélia foi muito infantil e até ridícula. A gente não pode fazer coisas sem antes avaliar a situação, né? E por causa disso a relação ficou fria, se acabou. Mas eu aposto que você arranjará um final bem romântico com uma reconciliação, né? Eu espero *_*
    Gostei da frase em destaque!
    Beijoca

    Foreverbia.blogspot.com

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  6. Eu adorei a parte 9! Você tá escrevendo cada vez melhor Taís, é sério. Eu fui ao Santander Cultural hoje, e lembrei da Amélia. Eu fiquei imaginando ela e o Daniel lá. heuehue sério mesmo. Adorei, e você sabe que eu amo "a arte do destino". Parabéns, você escreve muito bem *-*.


    Beijooooooos, e ownnn me apaixonei pelo Daniel, sei lá ele me lembrou ao Leo O.o (FMF)

    sweetsecretfantasy.tk

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  7. Ai, Taís você tem que ser escritora, nem que seja só um hobby... Essa história esta cada vez mais linda! NÓS VAMOS RUMO A COMEMORAÇÃO DA DÉCIMA PARTE DE "A Arte do Destino".... u.u

    http://mostrandoquemsomos.blogspot.com

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