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Somos Quem Podemos Ser #2

16.3.14

Capítulo 2:
Eu sinto muito


Era sábado. A brisa estava suave e duas borboletas enfeitavam a gigantesca tela azul de nome céu. O dia estava lindo, colorido. Já Roberto, vestido de preto. Assim como todas as outras pessoas ao seu redor. Ele estava olhando para o caixão, pouco antes daquele homem ser, em fim, colocado na cova. A última visão que teria do seu pai. Era sua mais recente perda.

“Eu sinto muito”.

O garoto de cabelos castanhos já perdera a conta de quantas pessoas lhe disseram isso naquele dia, quem dirá em toda a sua vida. Já havia escutado aquela frase mais vezes do que gostaria, mais vezes do que seria saudável. Familiares e amigos de seu pai, todos ali presentes. Aquele era um dia triste.

Por incrível que pareça, o rapaz porto-alegrense de quase dezessete anos não estava chorando. Seus olhos azuis sequer estavam marejados. Estava com uma expressão calma no rosto. Tão calma que quem o olhasse por fora naquele dia, naquele melancólico cemitério, pensaria que ele não estava sofrendo. Que perder o pai não lhe afetou em nada. 

Pouco as pessoas sabiam.
Por dentro, ele ruía.

Talvez as lágrimas não tenham aparecido porque Roberto já havia as utilizado demais ao longo dos últimos dez anos. Começou a fazer uso delas, inclusive, em outro fim de semana distante no calendário, quando tinha apenas seis anos de idade. 

Foi em um domingo, um dia feliz. Ele estava na casa de seus avós. Passava quase todos os fins de semana lá, e aquele não foi diferente. Seu pai, mãe e irmãzinha de quatro aninhos estavam dentro de um carro, indo em direção a casa dos avós de Roberto para buscá-lo. Mas não chegaram. Não conseguiram chegar. Outro carro avançou o sinal vermelho, e bateu no carro deles em cheio. A mãe e irmãzinha de Roberto morreram. E o motorista do outro carro também. O pai desmaiou e recobrou a consciência horas depois, no hospital. Quando ficou sabendo que a mulher e filha haviam morrido, derramou algumas poucas lágrimas. E depois, nada. Não falou com ninguém. Não foi para a casa dos pais buscar o filho, nem falou com ele. Apenas voltou para sua solitária casa e ficou olhando para as paredes. Olhando para o vazio.

Por fora, ainda vivia.
Por dentro, já estava morto.

Já Roberto reagiu diferente quando os avós lhe contaram: chorou muito. Por dias e dias seguidos não conseguiu dormir. Seus avós lhe abraçavam o tempo todo. Lhe davam carinho. Nós sempre estaremos aqui, diziam enquanto ele chorava. Mas Roberto não acreditou. Seus pais haviam lhe dito o mesmo. E agora, a mãe se fora. No enterro da mãe e irmã, foi abraçar o pai enquanto chorava - o primeiro contato entre eles após o acidente -, mas ele não retribuiu o abraço. Roberto chorou mais ainda.

Foi aí que percebeu.
Havia perdido seu pai também.

Ao longo dos dez anos de vida que o pai dele ainda teve, continuou fechado. Não falava mais, só quando era estritamente necessário. Jamais sorriu novamente. E Roberto, mesmo cercado de carinho dos avós, se afetou com isso. Ha, e como se afetou. Após mais quatro semanas chorando e tentativas de ouvir algo como vai ficar tudo bem, filho de seu pai, ele desistiu. Parou de chorar e, aos poucos, foi se tornando uma pessoa fechada também.

Sim, ele já havia perdido o pai há dez anos.
Agora era oficial, mas a perda já havia acontecido há muito tempo.
Ele já tinha chorado o suficiente.

Ao fim do enterro, seu avô foi até ele e o abraçou. Filho, eu sinto muito..., disse ele enquanto chorava. Eu sinto muito. Outra vez escutando aquela frase, misturada ao choro do avô. Sentiu que seu avô precisava ser consolado, que deveria dizer alguma coisa. Mas não o fez. Dessa vez, foi ele quem não retribuiu o abraço.
Para ler o capítulo anterior, clique aqui.

10 comentários:

  1. Taís, li o primeiro capítulo e agora este. Você está arrasando, com uma história bem contada, com as palavras certas... e isso é simplesmente invejável! rsrs.
    Já é esperado: vou acompanhar! ♥

    Beijos. .:Entretanto:.

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    1. Muito obrigada, Ju! ^^
      Fico feliz! ♥
      Beijos.

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  2. A história tá incrível!Não vou perder nem um capítulo com certeza...
    Como a Ju disse está invejável ! kkk
    Tem post novo lá no blog,ficaria feliz com sua visita :)
    Beijos e até mais ♡

    meuqueridodiariooficial.blogspot.com.br

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    1. Muito obrigada, Elisama! =)
      Já passo lá. ^^
      Beijos e até. ♥

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  3. Dois capítulos e já está claro que Somos Quem Podemos Ser será uma webnovela bem dramática e emocionante! Se de um lado a personalidade ativa de Melina diverte o enredo, do outro se tem a melancolia e reclusão emocional do Roberto, e já posso imaginar a relação conflituosa e imprevisível que esses dois poderão formar desde o primeiro momento. E mal posso esperar para acompanhar toda essa história! Taís, você está se superando a cada capítulo! (já falei antes, mas 'amiga coruja' é assim mesmo, rs).
    Muitos beijos!

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    1. Sâmella, sua linda, pode ser 'amiga coruja' o quanto quiser, viu? Haha! Muito, mais muito obrigada mesmo ♥.
      Muitos beijos para você também! =)

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  4. Você quer me matar Dona Taís?

    Introduzindo este personagem acompanhado pelo morte?

    Meu Deus do Céu!!

    Desculpe a demora pelo comentário, mas eu estava sem internet <3

    Beijos

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    1. Não, quero que fique bem viva, Dona Cléo u.U
      Beijos!

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  5. Taís, como sempre está de parabéns! Não preciso falar que você escreve MUITOO bem, porque isso você já sabe, não é?
    Nos dois primeiros capítulos já estou apaixonada com a história. Sério. haha
    Fiquei muito chorosa com esse capítulo =s

    Lindaaaa, eu amooo seus contos/web novelas!

    Beijo <3 <3

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  6. Adorei os dois capítulos, você escreve muito bem!!!
    Seguindo aqui!

    www.amordeframboesa.blogspot.com

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