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Farsa

8.12.14

Poem A Day 08 - Tema: A Montanha e o Rio
Farsa


Beatriz acordou animada. Aquele era o dia pelo qual havia esperado tanto: o dia da simulação. A simulação é muito cara, tão cara a ponto de apenas pessoas ricas poderem experimentá-la. Porém, anualmente, em um único dia, os primeiros anos do ensino médio tinham direito de entrar na sala de simulação e lá permanecer por meia hora, em uma verdadeira viagem ao passado.
Beatriz levantou-se da cama e olhou, pela janela do seu quarto, através da redoma de vidro que envolvia sua casa, para o céu laranja afetado pela poluição, e para a estrada de asfalto com alguns carros andando por ela. Beatriz pegou, mais uma vez, a foto que sua mãe lhe dera, tirada pela tataravó da tataravó da tataravó... da sua tataravó. A foto mostrava um belíssimo céu azul, uma estrada cercada de árvores e alguns pássaros voando pelo céu. Além disso, havia uma pequena lagoa. A tataravó da tataravó... de Beatriz vivia no mesmo terreno onde, agora, se localiza a casa de Beatriz. Aquela fotografia foi tirada do lugar onde fica a janela do quarto de Beatriz, aliás.
Mas isso foi há muito tempo.
Quando ainda era possível sair de casa, de dentro da proteção da redoma de vidro, e respirar um oxigênio puro, sem a necessidade de máscaras de oxigênio. Quando ainda haviam árvores nas ruas, quando o mar ainda não era de puro lodo. Quando a água ainda não era algo tão raro. Pela milésima vez, Beatriz comparou aquela fotografia com a atual realidade. Não parece que está olhando para o mesmo lugar. A paisagem está completamente transformada, e isso é terrível.
Hoje é o dia da simulação. Beatriz e seus colegas de escola poderão entrar em uma sala que simula perfeitamente como era o mundo no passado, através de um programa de computação, tecnologia pura. A mãe de Beatriz lhe disse que esta é uma experiência única. Bia mal conseguia conter a ansiedade! Ela ainda não sabia qual cenário seria escolhido para a simulação, mas sabia que seria um cenário perfeito, de qualquer forma. O mundo costumava ser um lugar perfeito no passado.
Após comer alguma coisa, Beatriz e seu pai colocaram suas máscaras de oxigênio e entraram no carro. O pai de Beatriz dirigiu até o museu, local onde fica a sala de simulação. Beatriz se despediu do pai e mostrou aos guardas sua identidade e convite para entrar no museu. Atravessou a redoma que envolvia o museu e retirou a máscara de oxigênio da face com alegria.
A maioria dos demais alunos já estavam lá. Beatriz chegou e cumprimentou duas amigas. O restante dos alunos chegou em cinco minutos. A professora fez a chamada para se assegurar de que todos estavam presentes. Todos os alunos estavam prontos. Seriam a primeira turma da manhã a entrar na sala de simulação.
Finalmente, chegou a hora. Ao entrarem, Beatriz observou que a sala de simulação era bem espaçosa. Logo, uma paisagem desolada do mundo atual surgiu. Eles se viram no pé de uma montanha. O céu estava laranja, como de costume. A simulação era completamente real. Havia uma telinha lá no teto da sala. Nela estava escrito “Atualmente”. Mas, de repente, o cenário mudou. Começou a retroceder vários anos, até parar no ano de 2000.
O céu tornou-se azul, com algumas nuvens. A montanha se encheu de árvores. Haviam pássaros voando pelo céu. Haviam flores. Havia grama. Tudo. Até mesmo a brisa conseguiu ser reproduzida. Aquela simulação era perfeita.
Mas, o detalhe que mais chamou atenção de Beatriz, sem dúvida nenhuma, foi o rio que surgiu ali. Ele era grande, abundante, lindo. Beatriz teve vontade de tocá-lo, e assim o fez. Abaixou-se e encostou a mão na água, e os pixels presentes onde sua mão tocou se desintegraram, revelando o chão cinza da sala de simulações. Beatriz afastou rapidamente a mão do rio, assustada, e os pixels voltaram, restaurando a falha.
Aquela simulação não estava tão fantástica quanto Beatriz pensou que estaria. Tudo soava falso. Porque tudo aquilo era falso. Não havia tecnologia no mundo que pudesse trazer o passado e sua natureza gloriosa de volta a vida. A brisa, temperatura e formatos poderiam ser simulados, sim. Mas nada daquilo era realmente real. Nada estava disponível ao toque. Porque o mundo da sala de simulações era completamente falso.
A professora, então, disse em voz alta “leve-nos para o topo da montanha”, e, em dois segundos, lá estavam eles. Lá de cima, era possível ver uma paisagem sensacional. Lembrou-se da foto que a tataravó da tataravó... havia tirado, naquele momento. Se Beatriz pudesse tirar uma foto da sala de simulação, sairia perfeita. Mas era proibido levar câmeras para lá.
Beatriz ainda observava a paisagem quando ela desapareceu na sua frente.
O tempo da sua simulação havia acabado.
Era hora de voltar a realidade.
Ao saírem de lá, seus colegas pareciam animados. Mas Beatriz, não. Nunca gostou de farsas, e não seria agora que começaria a gostar. Não mesmo. Ela tinha consciência de que vivia na era da tecnologia e que, nem em um bilhão de anos, a tecnologia seria capaz de recriar a realidade, fazer com que as coisas voltassem para seu devido lugar.
Precisava se conformar com isso. Afinal de contas, laranja não é uma cor tão ruim.
Esse texto foi inspirado no livro "A gente ama, a gente sonha", da Fabiane Ribeiro - super recomendo a leitura desse livro, aliás. Eu imagino essa história se passando no mesmo universo de "A gente ama, a gente sonha". Espero que tenha gostado!
 Beijos Taís K.

6 comentários:

  1. Que lindo Ta! Eu amei, ficou bem futurista mesmo e a frase do final ficou maravilhosa, deu um fim com chave de ouro!

    Um beijo grandããão!
    Cá do Aquela Princesa

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    1. Muito obrigada, Carol! ♥
      Um beijãããão enorme pra você! ^^

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  2. Ah que delícia de texto, parabéns! To seguindo ;-)
    Ta rolando um sorteio lá no blog, confere lá...

    Beijos
    @tudodmenina
    www.tudodmenina.com

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  3. Taís, sua linda, sério que homenageou o livro da Fabi? Nossa, ficou lindo o texto! E combinou perfeitamente com o tema do dia! <3 Mesma atmosfera de prisão do livro, mesma sensação de saudade da vida...Enfim, parabéns mesmo!
    Acompanho silenciosamente seus outros escritos por meio do grupo e do blog, não deu para comentar, mas li todos e estou gostando de ver até onde sua inspiração está indo. Está se superando, hein, continue assim! ^_^
    Beijos...

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    1. Muito obrigada, Sâmmy! Estou respondendo este comentário no dia 16 (atrasada como sempre kkkk') e este texto ainda é o meu favorito dessa edição do Poem a Day. ♥
      Muito obrigada! Suas produções também estão fantásticas! ^^
      Beijoos!

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