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Não podemos mais viver assim

12.12.14

Poem A Day 12 - Tema: O Som Ao Redor
Não podemos mais viver assim


Matheus estava tentando se concentrar no seu livro de biologia, pois ele teria uma prova na manhã seguinte. Já passavam das 21 horas, e ele ainda não havia estudado. Tinha deixado tudo para a última hora, como de costume. Péssima ideia. Ele não estava conseguindo se concentrar porque os gritos não deixavam. Mesmo dentro do seu quarto, com a porta fechada, os gritos vindos da sala eram bem audíveis.
- Pelo amor de Deus, tudo o que eu fiz foi te perguntar onde você estava! - A mãe dizia, em meio as lágrimas e soluços.
- Não, você me criticou, porque não confia em mim! - O pai respondeu.
- Você bebeu de novo, não? Você não pode beber! Sabe que isso não te faz bem! Você vira outra pessoa!
Matheus ouviu sons de tapas. O choro e os soluços da mãe aumentaram. Ele estava batendo nela outra vez.
- E quem você pensa que é para me criticar!? Em!? - Ele perguntava, mas ela não conseguia responder, não conseguia falar.
Aquela não era a primeira vez em que aquela cena acontecia. O pai de Matheus era alcoólatra e, todas as vezes em que bebia, achava motivos para discutir. Brigar. Xingar as pessoas ao seu redor. E bater na esposa, claro. E a desculpa dele, depois, quando sóbrio novamente, é que seu pai fazia o mesmo. Que esse costume está no sangue.
Matheus ainda se lembrava, claramente, da última vez em que a mãe fora agredida.
- Não podemos mais viver assim, Matheus. Vou me divorciar do seu pai, vou sim. - Ela tinha dito.
Mas é claro que não o fez. Porque ele pediu desculpa, como sempre. Porque ela o desculpou, como sempre. Ele já estava acostumado a bater e, ela, a apanhar.
Matheus sentia um grande nojo dele. E raiva. Muita, muita raiva. E sentia raiva da mãe também, por ela aceitar continuar vivendo daquela maneira. Por aceitar a desculpa mais idiota de todas: faço isso porque meu pai também fazia, é herança familiar. Está no sangue.
Então, Matheus deveria ser adotado. Com certeza. Jamais seria capaz de fazer o mesmo que seu pai fazia.
O barulho na sala continuava. Matheus acabou por desistir de estudar. Fechou seu livro e guardou-o na mochila. Ele poderia preparar algumas colas na manhã seguinte, sim. Daria tempo com certeza. Precisava dar, porque, bem, Matheus não tinha conseguido memorizar absolutamente nada, e poderia ler aquelas páginas por horas que não memorizaria. Estava com raiva demais para estudar.
Matheus pegou seus fones de ouvido, conectou-os no celular e colocou uma de suas músicas favoritas no volume máximo, para tentar distrair a cabeça. Funcionou. Tudo parecia bem enquanto ele ouvia sua playlist. Parecia, mas não estava. As coisas nunca estavam bem, não de verdade.
"Não podemos mais viver assim."


Beijos Taís K.

2 comentários:

  1. Oi Taís!
    Que texto lindo, mas também triste. O que quero dizer com lindo, é a sua criatividade. E triste, por toda a história mesmo. Tenho um amigo, que o pai é alcoólatra. Só que até onde eu sei, o pai dele não agredi a mãe. Ou ele só não quis me contar... Mas enfim, o que quero dizer é: Sei como é a vida de uma garoto que os pais brigam, e o pai exagera na bebida. Esse meu amigo, é muito triste e revoltado. E a música e a única coisa que o ajuda a fugir dessa realidade. Cara, isso é muito triste! E as mulheres que sofrem agressão, não denunciam. Eu fico com raiva ainda mais delas. Talvez isso aconteça por medo ou sei lá. Não sei mais o que falar sobre esse tema.

    Enfim, acho que é isso.
    Um beijo, amg!
    psicot-i.blogspot.com

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    Respostas
    1. Oi, Minn! ♥
      Muito obrigada! Esse é um tema complicado mesmo... Bem, eu acredito que cada mulher que não denuncia tem suas próprias razões, acha que é melhor deixar quieto, sente medo, quer "preservar a família", não sei. É complicado.
      Beijão, amigs! ♥

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