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Ponto de vista

15.6.15

#PHPoemADay 15 - O delírio

Ponto de vista

Viver é simplesmente não ter a certeza de absolutamente nada, e confiar nas interpretações da sua mente. A você, cabe apenas torcer para que a maioria das demais pessoas do mundo tenha a mesma visão da realidade, caso contrário, meu chapa, sinto muito. Você é diagnosticado com algum tipo de transtorno psiquiátrico. Pode ter que se dopar de remédios para o resto da sua vida, ou ir parar num sanatório, dependendo do seu tipo de transtorno.
Dediquei minha vida a estudar a mente humana. Desde os dez anos, sempre sonhei em ser psiquiatra. Consegui bolsa na melhor universidade do meu estado, tornei-me um profissional de sucesso. Durante anos, acreditei na grande mentira de que existem pessoas normais e pessoas insanas. Condenei dezenas de pessoas que considerei insanas a uma vida de dopamento constante. Outras dezenas eu encaminhei para hospícios. Sempre acreditando, verdadeiramente, que eu estava ajudando, fazendo o melhor para elas.
Percebi que estava enganado.
Uma noite qualquer, não consegui dormir. Um miado insistente não me permitiu. Deixou-me acordado até o amanhecer. Quando me levantei na manhã seguinte, minha amada esposa já havia preparado o café da manhã. Sentei-me a mesa, e, sem demora, um gato preto entrou pela janela da cozinha e sentou-se na cadeira na qual minha esposa costuma se sentar. Ela estava de pé. Continuei a observar o gato. Minha esposa sentou-se em cima dele. “Não! Vai esmagar o gato!” eu gritei. Ela sentou-se assim mesmo. O gato sumiu. Ela olhou-me assustada, com olhos arregalados. “Tadeu, não tem gato nenhum aqui.”
Mas eu sei que tinha. É claro que tinha! Era real! EU VI! Era real. Ao menos para mim.
Aquela foi a primeira vez em que enxerguei algo que o resto do mundo não foi capaz de ver. Outros episódios como esse ocorreram. Vi outros animais aleatórios, vi pessoas me encarando e me perseguindo. Até mesmo meu falecido pai me fez uma visita e conversou comigo. Comecei a falar com todos aqueles que vinham me visitar. No meio de um diálogo com meu pai em um domingo, eu estava confortavelmente sentado no sofá ao lado dele, e minha esposa, ao sair de nosso quarto, olhou-me e começou a chorar. Não entendi o porquê do choro. É um milagre! Meu pai voltou dos mortos! Ela deveria rir, sorrir e dar um abraço nele ao invés de derramar lágrimas.
Minha esposa forçou-me a ir a um psiquiatra. Quanta ironia! Ele disse que eu poderia estar com esquizofrenia. Perguntou-me se alguém de minha família possui tal transtorno. Eu respondi que não. Porém, minha esposa, sentada ao meu lado, disse que sim. “Telefonei para sua mãe, Tadeu. Contei a ela sobre seus delírios. Ela me disse que seu avó, o pai dela, era esquizofrênico.” Eu não sabia disso. Levantei da cadeira em que me encontrava e saí correndo do hospital. Mas seguranças me agarraram. Tentei resistir e bateram na minha cabeça. Desmaiei.
Fui traído pela mulher que amo. Deixou que me jogassem em um sanatório. Eles me dão remédios todos os dias, e eu sempre resisto. Gosto do meu mundo. Não quero viver no mundo deles! Eles me fazem engolir os remédios a força. Mudam a minha visão de mundo para que se pareça com a deles. Tão egocêntricos! Só porque são a maioria, julgam não serem loucos como eu. Julgam serem “normais”. Até parece que existe alguém normal de verdade! E pensar que eu era um deles...
Cuidadosamente, estou armando um plano para fugir deste inferno e poder viver livremente no mundão lá fora. Viver do meu jeito, através do meu olhar. Agora, com licença. Preciso alimentar meu querido gato preto. Ele jamais me abandona.

Beijos, Taís K.

2 comentários:

  1. Adorei <3 E parabéns, é difícil me fazer ler um texto desse tamanho pelo pc :3 <3 Um beijo.

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